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Livro Oriente       <<  ARTIGO IX   >>       Carlos Mariano

        

 

 

“Se deres dízimos  -

  Si decimas dederis...”

 

 

                                                  

                                                

                                             

                                         

                                                 

                                                 A consideração epigrafada é de Santo Agostinho: “Se deres dízimos, não só receberás a abundância dos frutos, mas também a saúde do corpo”. Esta proposição do santo Bispo de Hipona, Doutor da Igreja, expressa o entendimento católico entre dar e pagar: quem dá faz uma doação; quem paga salda uma dívida, um compromisso. Quem aceita pagar o dízimo e o faz mensalmente, salda um comprometimento e cumpre uma obrigação. Que não seja motivo de vanglória, Jesus deixa claro na parábola do Fariseu e do Publicano (Cf. Lc. XVIII, 14). Nós católicos, estamos compromissados em “pagar dízimos segundo o costume”, quinto Mandamento da Igreja. Estes “dízimos” sem artigo, são por demais abrangentes, compreendendo entre outros: Donativo na coleta do Ofertório, encomendação  de Missas, despesas com Batizado, Comunhão, Confirmação, Casamento, participação nas festividades do Padroeiro da paróquia a que se pertence, quer trabalhando, ofertando, adquirindo monetariamente o que se ofertou, rifas, bingos, chás beneficentes, óbolos para reforçar o caixa dos vários Movimentos, aos quais cada um de nós se irmana e tudo o mais que o pároco conveniar e achar por bem implantar, em concordância com o Conselho Administrativo leigo; evidentemente, sem defraudar o remate do Mandamento da Igreja: segundo o costume.  Não assim, os nossos irmãos separados, que pagam “o dízimo” com artigo definido e que compreende dez por cento da renda bruta de cada filiado, nada além. Caso contrário o artigo “o” perderia a sua função. É oportuno lembrar, que cumpre a Palavra de Deus, tanto católico quanto irmão separado, aquele que o faz desprendida e voluntariamente, pois: “Deus ama a quem dá com alegria” (Cf. 2Cor. IX, 7). Notem: “Deus ama a quem dá”, distintamente de quem é imposto, forçado a pagar uma dívida para com Deus, que o vil metal, papel moeda, ouro e prata não pagam; sequer amortizam.

 

                                                 Na cura dos dez leprosos, só um voltou a agradecer e recebeu de Jesus aquilo, que grande parte da humanidade desconhece necessitar: A salvação pela fé. O samaritano curado sabia, o que muitos fingem ignorar, que o benefício recebido, mormente o Divino, só se paga com a gratidão (Cf. Lc. XVII, 11-19).

 

                                                O esperto Giezi, servo de Eliseu, quis tirar proveito do milagre que o seu senhor por Divino poder, havia operado em Naaman e recebeu por Eliseu, a lepra do sírio (Cf. 2Rs. V, 20-27).Os dons de Deus são gratuitos, não se vendem, não se pagam.

 

                                                 Bíblica e historicamente, Abrão, que significa “grande pai”, antes portanto, de Jesus transmudá-lo em Abraão “pai de multidão”, quando regressando vitorioso da campanha que havia empreendido contra Codorlaomor, lhe saiu a cumprimentar o rei de Salém, Melquisedec. A este, por ser sacerdote do Deus Altíssimo, deu dízimos de tudo. Abrão não pagou, DEU (Cf. Gen. XIV, 16-20).

 

                                                 Posteriormente, Jacó, neto de Abraão, por conselho de sua mãe Rebeca e com as bênçãos de seu pai Isaac, parte para Mesopotâmia, a fim de tomar mulher de sua raça e origem. Deixando Bersabéia em direção a Baran, foi surpreendido pela noite em certo lugar e fazendo de uma pedra travesseiro, aí dormiu. Em sonhos, viu uma escada (símbolo de Maria Santíssima) que ligava a terra ao céu e os anjos descendo e subindo por ela. Acorda sobressaltado, dizendo de si para consigo, ser ali a Casa de Deus e a Porta do Céu e faz um voto: “Se voltar felizmente à casa do meu pai, o Senhor será meu Deus e de todas as coisas que me deres, te oferecerei o dízimo” (Cf. Gen. XXVIII, 20-22). Ora, o voto é uma promessa e promessa é dívida. Jacó, o futuro Israel, deveria dizer: “Solveram – pagarei”; pelo contrário, disse: “Decimas offeram – oferecerei dízimos”. O que Abrão, Jacó e santo Agostinho, deixaram registrado é que nós poderemos dar, oferecer, jamais pagar a Deus, pois tudo é dele, até o nosso respiro; sujeitando a Terra ao homem, de cuja administração boa, má, ou esperta, haveremos de prestar contas.

 

                                                 O termo dízimo volta a aparecer no livro do Levítico. No entretanto, estranhamente, na tradução elaborada pelo respeitadíssimo Pe. Matos Soares, o vocábulo surge antes, no livro do Êxodo: “Não tardarás em pagar os teus dízimos” (Cf. Ex. XXII, 29); a frase correspondente em latim: “Abundantiam areae tuae et torcularis tui non tardabis reddere”, não explicita o substantivo “decima – dízimo” e entendê-lo implícito, só é aceitável pela respeitabilidade devida ao Pe. Matos que, no meu fraco entender, forçou a delicadeza da expressão. Tanto é assim que nem mesmo os nossos irmãos separados, zelosos em imporem o dízimo aos simplórios, vislumbraram a possibilidade de introduzirem o vocábulo no trecho referido, já que o traduzem desta forma: “Não tardarás em trazer OFERTAS do melhor das tuas ceifas e das tuas vinhas”.

 

                                                Conforme o parágrafo anterior, o termo dízimo volta a aparecer no Levítico e no capítulo vinte e sete, além dos produtos da terra, estende sua aplicação ao gado graúdo e miúdo (Cf. Lv. XXVII, 30-34). O livro do Deuteronômio, estipula o dízimo anual e trienal (Cf. Dt. XIV, 22-29), remetendo para outras citações do vocábulo, ao rodapé ou à margem das páginas bíblicas, abrangendo Ml. III, 10-11.

 

                                                 No Novo Testamento, por ocasião da cobrança do didracma, São Pedro interpelado pelos arrecadadores do tributo, se o Mestre não pagava o imposto, respondeu-lhes que sim. Ciente do ocorrido, o Divino Salvador põe a situação nos eixos: "Vai ao  mar, lança o anzol e o primeiro peixe que subir, segura-o e, abrindo-lhe a boca, acharás dentro um estáter; toma-o e dá-lho por mim e por ti" (Cf. Mt. XVII, 24-27). Jesus e Pedro não pagam, porém, para não escandalizar os judeus, o Sublime Redentor resolve fazer uma doação: "Dá-lho por mim e por ti". O Mestre não pagou, por ser credor; São Pedro, porque o preciosíssimo sangue do Crucificado, saldaria a dívida contraída pelo pecado não só de Pedro, mas da humanidade inteira. 

 

                                                 Dos quatro Evangelistas, só dois deles fazem referência ao dízimo. Mateus e Lucas citam-no na perícope: “AI DE VÓS” (Cf. Mt. XXIII, 23 e Lc. XI, 41-42) e somente Lucas na parábola do Fariseu e do Publicano (Cf. Lc. XVIII, 12). Citações estas, em nada enaltecedoras; aliás, deprimentes.

 

                                                 Na carta aos Hebreus, que se atribui a São Paulo, no trecho em que recomenda Melquisedec como figura de Cristo, cita por cinco vezes a palavra “dízimo”, esclarecendo: Mudado que seja o sacerdócio, é necessário que mude também a Lei”, pois, ab-rogado o sacerdócio levítico, fica-nos a determinação do Senhor nosso Deus: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Cf. Hebr. VII, 1-28). Nas demais cartas, até onde me foi dado constatar, não se encontra o termo “dízimo”. O Apóstolo das gentes, premido pela angústia e necessidades dos pobres em Jerusalém, partilhando do sofrimento daqueles desafortunados, solicita coleta, doação, bênção, oferta, graça, esmola; porém, restabelecimento do “dízimo”, nem pensar! O que seria um contra-senso, um disparate, uma volta ao caduco sacerdócio levítico, em detrimento ao sacerdócio de Cristo.

 

                                                  Dirigindo-se aos filipenses, tendo recebido por mãos de Epafrodito o que denomina de “odor de suavidade” e “hóstia aceita” agradável a Deus, São Paulo ressalta: “Nenhuma igreja comunicou comigo quanto a DAR e RECEBER, senão vós somente” (Cf. Flp. IV, 10-19). Nos Atos dos Apóstolos, declara: “Não cobicei prata, nem ouro, nem vestes de nenhum, como vós mesmos sabeis, pois ESTAS MÃOS me serviram para as coisas que me eram necessárias a mim e àqueles que comigo estavam” (Cf. At.XX, 32-34). São Paulo é o exemplo maior do desapego às coisas terrenas: “Tendo pois, os alimentos e com que nos cobrir, contentemo-nos com isto”. Diz mais: “Com efeito, a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições” (Cf. 1Tim. VI, 8;10). No envolvimento político, desacorçoa os seguidores de Jesus Cristo: “Ninguém que se alistou na milícia de Deus, se embaraça com os negócios do século, a fim de agradar aquele que o alistou” (Cf. 2Tim. II, 4), em perfeita sintonia com Jesus: “A César o que é de César; a Deus o que é de Deus” (Cf. Mt. XXII, 21).     

 

                                                 Nesta linha de pensamento São Paulo, ordena aos cristãos: “Toda alma esteja sujeita aos poderes superiores, porque não há poder que não venha de Deus e os que existem foram instituídos por Deus. Aquele, pois, que resiste à autoridade, resiste à ordenação de Deus” (Cf. Rom. XIII, 1-2). Por falta de Catecismo, a sociedade brasileira habituou-se a funcionar só sob pressão e pressionar a autoridade constituída gera vulgaridade e dá IBOPE; matéria prima do político desonesto, geradora de falsas lideranças. O Líder não se preocupa com a Opinião Pública, ele segue o caminho, porque tem um objetivo em vista: “Quereis vós também retirar-vos?” O Líder não bajula a opinião pública; o Líder não sai atrás, Ele segue em frente. O Líder não angaria votos; Ele faz votos que a gente O siga. O Líder não desceu para se misturar; misturou-se para nos elevar. Veio para restaurar  em  nós, o seu  retrato primeiro: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Cf. Gen. I, 26).

 

                                                 Os nossos irmãos separados, costumam cobrar o dízimo sem incorrerem no pecado da simonia, que consiste no tráfico criminoso de coisas santas e espirituais, abrangendo sacramentos, dignidade, benefícios eclesiásticos e venda ilícita de bens sacros; pois, não os possuindo, os nossos irmãos separados não os podem traficar. A respeito, para os que se não lembram, simonia deriva de Simão, aquele sedutor que assombrava o povo com as suas artes mágicas e que prometeu dinheiro a São Pedro e São João, pretendendo comprar os dons do Divino Espírito Santo (Cf. At. VIII, 8-24). Ora, o mago Simão agiu por ignorância, porém, escutou de São Pedro: “O teu dinheiro pereça contigo”. Se o ignorante é tratado com inflexibilidade, o que será dos maliciosos e espertinhos?

 

                                                Contra a estipulação do dízimo, afora a caducidade explanada e o risco da simonia referida, pesa a determinação do Senhor Jesus: “Dai de graça o que de graça recebestes” (Cf. Mt. X, 8). Por outro lado o nosso Deus ressalva: “O operário é digno do seu alimento” (Cf. Mt. X,10). Por sua vez, São Paulo instrui: “Os presbíteros que governam bem, sejam considerados dignos de estipêndio dobrado; principalmente os que trabalham em pregar e ensinar” (Cf.1Tim.V,17; 1Cor.IX,13-14). Em consonância, se o operário é digno do seu alimento e os presbíteros que governam bem fazem jus a um salário dobrado, há de se ter uma renda, um fundo de reserva sobre o qual se possa sacar. Nada mais lógico e inteligível. Porém, entre a oferta voluntária, que mantém esse fundo administrativo e a imposição do dízimo, reside um precipício intransponível, dado que, contribuição não comunica com imposição. Visto que, Jesus nos manda dar daquilo que nos sobeja (Cf. Lc. XI, 41).

 

                                                 A Igreja, aos dízimos estipulados pelo seu quinto mandamento e anteriormente explicitados na sua maioria, está inibida em adotar qualquer imposto que condicione o fiel católico à participação dos sacramentos. O católico, não pode estar condicionado ao pagamento de qualquer taxa, para o acesso e recepção dos sacramentos, tendo em vista a caracterização da simonia. A Igreja é uma sociedade religiosa, militante no tempo, com vistas à padecente e gloriosa na Eternidade. O pagamento de qualquer mensalidade, cuja apresentação do canhoto respectivo, seja obrigatória para capacitar o católico em usufruir dos seus benefícios sacramentais, é reduzir a igreja a uma sociedade profana, com as recreações  que lhe são próprias, bailes e blocos carnavalescos. Isto em tese, porque o desvario é de certos párocos e não determinação da Igreja Romana.

 

                                                 Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a Sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo”.  A chave de todos os problemas econômicos e sociais, encontra-se no fiel cumprimento desta determinação de Jesus, nosso Senhor e Mestre, que não procura as nossas dádivas e sim a  nós próprios.

 

                                                  Sobre à caducidade do dízimo, nada mais a dizer e,  acrescentando o que o anjo revelou a Cornélio: “As tuas orações e as tuas esmolas subiram como um memorial à  presença de Deus” (At X, 4),  encerra-se  o assunto. 

 

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Nota do autor

 

Quando dei corpo ao presente Artigo, o termo "dízimos" constava do 5º Mandamento da Igreja. Em 28 de junho de 2005, Sua Santidade, o Papa Bento XVI, promulgou o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, dando ao 5º Mandamento a seguinte redação: "Atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as próprias possibilidades". Como se observa, o termo "dízimos" (compreendido como "direitos de estola, benesses, pé de altar") foi eliminado e a Igreja jamais empregou o termo "dízimo", no singular. Porém, agora, estão propagando pela internet, uma "pastoral do dízimo", que só não consegue provocar risos (pelo despautério das referências bíblicas que, na pretensão de justificar a cobrança do dízimo, remetem o leitor para ofertas e coletas), em virtude de estar explorando os mais simples e necessitados. 

 

Frente o atual 5º Mandamento, promulgado por Sua Santidade,  o Artigo IX perdeu seu propósito, permanecendo, unicamente, a exemplo do livro do Levítico, como registro instrutivo, sem aplicação prática. Cumpre lembrar, que Jesus é Sacerdote segundo a ordem de Melquisedec e, como tal, ab-rogou o sacerdócio levítico, com suas leis, sacrifícios, dízimos e costumes; conforme explica São Paulo: mudado que seja o sacerdócio, é necessário que se faça também a mudança da lei. (Hebr VII, 12)

 

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