Imprimir

 

Próximo

Anterior 

Índice

 

 

Para instalar o livro completo em seu computador, clique aqui

Para continuar lendo on-line, navegue pelos botões à esquerda

 

Livro Oriente       <<  ARTIGO X   >>       Carlos Mariano

        

 

 

“Sem o conhecimento do seu Criador   -

  Absque notitia sui Creatoris...”

 

                                                

                                               

                                             

                                         

                                                 

                                                

                                                A Igreja nos adverte que todos os dias é dia da Bíblia, porém, distingue setembro como o mês da Bíblia, por excelência. No mês de setembro, todos deveríamos aprofundar um pouco mais os nossos parcos conhecimentos sobre a Palavra de Deus. A Bíblia, a Palavra de Deus, além de instrutiva é tão purificadora, que Jesus transmite, categoricamente, aos Apóstolos: “Vós já estais puros, em virtude da palavra que vos anunciei” (Cf. Jo XV, 3). Então, nada mais eficaz que a Palavra de Deus.

 

                                                Por ocasião em que Marta, zelosa dos afazeres domésticos, prepara a refeição de Jesus e dos seus discípulos, reclama da “inércia” de sua irmã Maria, que se conservava aos pés do Salvador, escutando atenta e avidamente as palavras do Mestre, recebe deste, a delicada reprimenda: “Marta, Marta, afadigas-te e andas inquieta com muitas coisas. Entretanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada” (Cf. Lc. X, 41-42). Não se requer genialidade, para se deduzir de imediato que a melhor parte é a Palavra de Deus.

 

                                                Argutamente, o padre João Colombo nos comunica o seguinte pensamento:  “Quem desejando ser sábio, desprezou o Evangelho para estudar outros livros, não compreendeu nem mesmo aquilo, que até as crianças estão capacitadas para compreenderem”. Nada mais simples que a Palavra de Deus e no entanto, nada lhe iguala em profundidade. A Palavra de Deus, assemelha-se ao horizonte, por mais que se percorra até onde possa alcançar a vista, estará sempre, inatingivelmente, defronte. A Palavra de Deus fundamenta o horizonte, pode-se compreendê-lo, mas, jamais abarcá-lo. Jesus nos explica: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelaste aos pequeninos. Assim é, ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Cf. Lc. X, 21). Os pequeninos compreendem a Palavra de Deus, os sábios não a encerram, nem lhe podem levantar barreiras: “Daqui não passará”.

 

                                                 Forçosamente, quem examina a Palavra de Deus, há de concluir, há de concordar com o salmista: “Compreendi mais que todos os meus mestres, porque fiz dos teus mandamentos a minha meditação” (Cf. Sl. CXVIII, 99). Logo, o segredo da desenvolução mental, encontra-se na meditação. Senão vejamos: Quando José, um dos doze filhos do patriarca Jacó, conta os seus sonhos, que a seu tempo se cumpriram, o trecho arremata: “Os seus irmãos, portanto, tinham-lhe inveja; porém, o pai meditava a coisa em segredo” (Cf. Gen  XXXVII,11).

 

                                                Aquela que a Igreja invoca sob o título de Sede da Sabedoria: “Conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Cf. Lc. II, 19). O expoente da língua nacional, Rui Barbosa, deixou dito: “Ler é vulgar, meditar é raro”. Como se vê, sacro e profano dão-se as mãos ao tratarem da importância na sabedoria, da meditação.

 

                                                A meditação não é, obrigatoriamente, um patrimônio da velhice e sim de maturidade, independente dos anos que se viveu, pois, existem velhos fátuos, vazios e ocos, em contrapartida jovens meditativos, responsáveis, exemplares vivos de madureza. Casimiro de Abreu, faleceu aos vinte e três anos e pelo que deixou escrito, foi aceito e proclamado, unanimemente, Patrono da Academia Brasileira de Letras; um menino, paraninfo de anciãos. Santo Antônio de Pádua e também de Lisboa, morreu em plena juventude, aos trinta e seis anos de idade. Certa feita, foi enviado a Roma na qualidade de Provincial de Milão e discursando, brilhantemente, diante do colégio cardinalício, o Papa Gregório IX assombrado com os amplos conhecimentos daquele moço, agraciou Santo Antônio com o título de “Arca do Testamento e Arsenal das Sagradas Escrituras”.

 

                                                São Luiz Gonzaga, mediador dos estudantes, entregou sua alma ao Criador, na flor dos seus vinte e três anos. São Luiz estava com uns jovens da sua turma e alguém conta uma piada indecorosa. São Luiz, vira as costas da mão na boca do piadista, retrucando: “Tal falar, justifica este gesticular!” O jovem São Luiz, no seu leito de morte, recebido os sacramentos, extasia os circunstantes com estas últimas e amadurecidas palavras: “Laetantes ibimus – Alegremente, vamo-nos embora”. A esses jovens colossais, o Livro da Sabedoria lhes dedica as seguintes palavras: “Tendo vivido pouco, encheu a carreira de uma larga vida; sendo sua alma agradável a Deus; por isso, Ele se apressou a tirá-lo do meio das iniqüidades” (Cf. Sab. IV,13).

 

                                                 Setembro é o mês da Bíblia. Dia 30 de setembro, dia consagrado a São Jerônimo, autor da Vulgata, a Bíblia oficial da Igreja. Assim como só existe uma Verdade, deveria existir também uma só Bíblia. Mas, porque existem muitas versões da Verdade, existem muitas versões da Bíblia. Popularmente se diz: “Ninguém é dono da verdade”. O próprio Jesus, não se manifestou dono da verdade e sim: "Eu sou a Verdade". Quão diferente!

 

                                                Diante de Pilatos, Jesus proclama: “Todo o que está pela Verdade, ouve a minha voz”. Disse-lhe Pilatos: “O que é a verdade?” Fez a pergunta a Pessoa certa, por não ter entendido a explicação anterior, saiu sem aguardar maiores explicações. Para Pilatos, como para a maioria das pessoas, a verdade varia, conforme as circunstâncias. No tempo de Pilatos, o dono absoluto da “verdade”, era César. Pilatos queria soltar Jesus, mas a “verdade” dos judeus prevaleceu: “Se soltas esse, não és amigo de César”. Pôncio Pilatos percebeu, que a “verdade” dos judeus, chegada aos ouvidos de César, poderia custar-lhe a cabeça. E assim, a “verdade” dos mentirosos predominou. Sem alternativa, entregou Jesus ao arbítrio dos judeus e na verdade, a Verdade foi crucificada. Pilatos, por ser cortesão, estava ciente que esse negócio de “verdade” na corte, é coisa muito complicada; mormente, quando a maioria está pela mentira, encaramelada, embuçada, disfarçada de verdade. Isto vale tanto para àqueles dias, quanto para os dias atuais.

 

                                                A inscrição “Sem o conhecimento do seu Criador” motivo deste artigo, no seu raciocínio completo fica assim: “Sem o conhecimento do seu Criador, o homem é um animal irracional – absque notitia sui Creatoris, homo pecus”. A tradução do “homo pecus”, mais livre e menos delicada poderia ser: “O homem é um boi”, um jumento ou um cavalo. A elasticidade na tradução, que via de regra não corresponde o pensamento do autor, deu margem ao aforismo italiano: “Tradutori, traditori – os tradutores são traidores”. Isto é a regra e o que confirma a regra é, justamente, a exceção. Na tradução das Escrituras, a exceção é a Vulgata de São Jerônimo. Pelo domínio do hebraico, do grego e do latim, São Jerônimo, fiel à estilística, não se limitou à tradução literal, mas em nos transmitir o sentimento do autor em cada frase que trasladou para o seu exuberante latim, formando essa pérola que é a Vulgata. Comparando-se a tradução de São Jerônimo com as demais, poder-se-ia dizer que a Vulgata é “uma açucena entre espinhos”; guardada as proporções, assim Maria entre as mulheres.

 

                                                 O magnificente Santo Agostinho, discípulo e amigo de São Jerônimo, não se furtou em compará-lo com São Paulo, igualando-lhe o zelo apostólico e amoroso a Jesus Cristo. É a São Jerônimo, que nasceu para a eternidade no ano de 420, que se deve o coerente e significativo “Ipsa conteret – Ela própria esmagará” (Cf. Gen. III, 15). É Maria Imaculada, por determinação de Jesus, que pisa a cabeça maligna, co-responsável pela queda de Eva no paraíso. São Jerônimo viu com clareza meridiana, que a justiça, quer Divina, quer terrena, requeria o soerguimento da mulher decaída, pois quem prevaricou foi Eva e infeliz, induziu Adão. A nova Eva, a Mulher forte Maria, teria que reparar a fraqueza da antiga Eva. Isto é racional e não devoção piegas; é tradução correta e não tradição; não é feminismo militante, é intelectualidade gritante. Os bitoladamente doutrinados, não admitem racionalidade. Não é a nossa devoção à Maria que pesa e sim a justa deliberação de Jesus. Assim como não fomos nós, que elegemos Maria para chegarmos a Jesus e sim Jesus que preparou Maria para chegar até nós.A conclusão é óbvia: Se Jesus só por Maria chegou até nós, só por Maria chegaremos a Jesus. Não aceitar este raciocínio, é direito assistido pelo livre arbítrio, pois diz bem a Vulgata: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; o que lhe agradar, isto lhe será dado” (Cf. Eclo. XV, 18). O que agradar o homem lhe será dado; será dado mesmo, indubitavelmente. Pois a Escritura, nos diz Jesus, não pode faltar. (Cf. Jo X, 35).

 

                                                Portanto, mitigado o proselitismo, acentua a responsabilidade individual na pregação do Evangelho, já que a Igreja não necessita de nós; nós é que necessitamos dela para nossa salvação.O proselitismo desenfreado, só aproveita às seitas arrecadadoras do dízimo, cujo volume arrecadado pelo pastor dizimeiro, está sempre aquém do desejado. A determinação de Jesus é: “Ide e pregai o Evangelho”, e não “Ide e angariai prosélitos”. A ansiedade em recrutar prosélitos é advertida por Jesus:“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas,  que rodeais o mar e a terra para fazerdes um prosélito;  e depois de o terdes feito, o tornais duas vezes mais filho da geena do que vós!(Cf. Mt. XXIII, 15). O que importa para Jesus é o conhecimento de Deus, não o número de sectários, cujo alarido só a nós impressiona. Ao afirmar que Sua carne é verdadeira comida e Seu sangue verdadeira bebida, originou-se uma debandada geral. Com impassibilidade perfeita, Jesus volta-se para os seus doze Apóstolos e lança o desafio: “Quereis vós também retirar-vos?”  Tocado pela Divina Providência, Simão Pedro respondeu-lhe: “Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e conhecemos que tu és o Santo de Deus” (Cf. Jo VI, 69). As palavras inspiradas de Pedro, não atingiram Judas Iscariotes, mas a paixão à bolsa que portava foi decisiva e ele permaneceu fiel às funções de caixa. Tal qual Judas, muitos permanecem fiéis ao “dízimo providente” e não à Providência Divina, que à Sua hora, a todos nós provê. Judas era ganancioso, mas não suficientemente tolo para propor a Jesus o restabelecimento do sempre oportuno dízimo levítico, repudiado, enfaticamente, pelo Mestre: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezastes os pontos mais graves da lei: A justiça, a misericórdia e a fidelidade” (Cf. Mt. XXIII, 23; Lc. XI, 41-42;  XVIII, 12). Jesus foi tão cristalino, que nenhum dos quatro Evangelistas, além destas passagens, voltou a citar o malfadado termo “dízimo”.

 

                                                  "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo teu espírito. Este é o máximo e o primeiro mandamento.  O segundo é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas" (Cf. Mt. XXII, 37-39).

                   

                                                   E que assim seja!

 

    *  *  *  *  *  *  *  *  *

 

    Ir para o Artigo XI