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Trabalhar juntos na construção do humanismo integral

Direto da  agência de notícias VIS para a Página Oriente, Via boletim eletrônico. (+ Saber mais sobre VIS)

08/01/2007  -  

CIDADE DO VATICANO, 8 JAN 2007 (VIS).- Esta manhã, na Sala Régia do Palácio Apostólico Vaticano,  Bento XVI pronunciou seu discurso anual aos membros do Corpo Diplomático  creditados junto à Santa Sé,  analisando os acontecimentos mais importantes do ano que acaba de terminar.  Recebeu as  felicitações de todos os embaixadores,  através do decano do Corpo, o Embaixador Giovanni Galassi, da República de San Marino.  

Atualmente a  Santa Sé tem relações diplomáticas plenas com 175 países,  aos que há que acrescentar às Comunidades  Européias e a Soberana Ordem Militar de Malta e  duas missões com caráter especial:  a missão da  Federação Russa e a Oficina da Organização para a Libertação da Palestina.  

"Ao início do ano - começou o Papa - se nos convida a olhar a  situação internacional para examinar os desafios que devemos enfrentar juntos.  (...)  O escândalo da fome,  que tende a agravar-se,  é  inaceitável em um mundo que dispõe de  bens, de conhecimentos e de  meios para subsaná-lo.  Isto nos impulsiona a  mudar nossos modos de vida e  nos recorda a urgência de  eliminar as causas estruturais das  disfunções da economia mundial,  e  corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente e  um desenvolvimento integral para hoje e sobretudo para o futuro".  

"Convido de novo aos responsáveis das  nações mais ricas a  tomar as iniciativas necessárias  para que os países pobres,  que  muitas vezes possuem muitas riquezas naturais, possam beneficiar-se dos frutos de  seus próprios bens.  Deste ponto de vista, é também motivo de preocupação o atraso no cumprimento dos compromissos assumidos pela comunidade internacional em anos recentes.  Seria, pois, de desejar a retomada das negociações comerciais de  "Doha Development Round" da Organização Mundial do Comércio, assim como a  continuação e aceleração do processo de anulação e  redução da  dívida dos países mais pobres,  sem que isso esteja  condicionado por medidas de ajuste estrutural,  prejudiciais para as populações mais vulneráveis".  

"Igualmente, no âmbito do  desarmamento, multiplicam-se os sintomas de  uma crise progressiva,  vinculada às  dificuldades nas negociações sobre as armas convencionais, assim como sobre as armas de destruição em massa,  e,  por outra parte, ao aumento de gastos militares em escala mundial.  As questões de segurança,  agravadas  pelo terrorismo que é necessário condenar firmemente,  devem  tratar-se com um enfoque global e clarividente".  

"Pelo que se  refere às  crises  humanitárias,  convém  levar em conta que as Organizações que as  enfrentam necessitam de um apoio mais forte, a fim de que possam proporcionar proteção e  assistência às vítimas.  Outra questão que adquire sempre mais destaque é a dos movimentos de pessoas:  milhões de homens e  mulheres se vêm obrigados a  deixar seus lugares ou sua pátria devido à violências, ou a buscar  condições de vida mais dignas. É ilusório pensar que os fenômenos migratórios possam ser bloqueados ou controlados simplesmente pela força.  As migrações e  os problemas que criam devem enfrentar-se com humanidade, justiça e compaixão".  

"Como não preocupar-se também dos contínuos atentados à vida,  desde a concepção até à morte natural? Tais atentados afetam  inclusive a  regiões onde a cultura do respeito à vida é tradicional, como na África, onde se intenciona trivializar subrepticiamente o aborto por meio do Protocolo de Maputo. (...) Se estendem também ameaças contra a estrutura natural da família,  fundada no matrimônio de um homem e  uma mulher,  assim com as intenções de revitalizá-la, dando-lhe o mesmo estatuto que a outras formas de união radicalmente diferentes".  

"Outras formas de  agressão à vida se  cometem às  vezes ao desamparo da investigação científica.  Se apoiam na convicção de  que a investigação não está submetida mais  que as leis que ela se dá a si mesma, e que não tem outro limite que suas próprias  possibilidades.  É o caso, por exemplo, do intento de legitima a clonagem humana para hipotéticos fins terapêuticos". 

"Este quadro preocupante nos impede de  perceber  elementos positivos que caracterizam nossa época. Quisera mencionar, em primeiro lugar, a crescente tomada de consciência sobre a importância do diálogo entre as culturas e  entre as religiões.  

"Convém também levar em conta como a comunidade internacional tem tomado consciência cada vez maior dos enormes desafios de nosso tempo, assim como dos esforços para que se  traduza em atos concretos.  No seio da Organização das Nações Unidas,  no ano passado se criou o Conselho de Direitos Humanos,  esperando que centre  sua atividade na defesa e  promoção dos direitos fundamentais da pessoa, em particular o direito à vida e  o direito à liberdade religiosa". 

"No âmbito do desenvolvimento, se promoveram  também diversas iniciativas às que a Santa Sé ofereceu seu apoio,  recordando ao mesmo tempo que esses projetos não devem dispensar do compromisso dos países  desenvolvidos de  destinar 0,70% de seu produto interno bruto para ajuda internacional.  Outro elemento importante é o esforço comum para a erradicação da miséria, que requer não só uma assistência cuja extensão é de desejar, mas também a  tomada de consciência sobre a importância da  luta contra a corrupção e  a  boa administração. É necessário também fomentar e  continuar os esforços realizados com o fim de garantir a  aplicação do direito humanitário às pessoas e  aos povos, para  uma proteção mais eficaz das populações civis".  

"Ao considerar a  situação política nos distintos continentes, encontramos ainda muitos motivos de  preocupação e de esperança.  Constatamos em primeiro lugar que a paz é  muitas vezes  frágil e  inclusive ridicularizada.  Não podemos esquecer o Continente africano. O drama de Darfour continua e se  estende às  regiões fronteiriças do Chad e  da República Centro-Africana.  A comunidade internacional parece impotente há quase quatro anos, apesar das iniciativas destinadas à aliviar as populações indefesas e a aportar uma solução política.  Estes meios só poderão ser eficazes mediante uma colaboração ativa entre as Nações Unidas, a União Africana, os governos implicados e  outros protagonistas".  

"A situação no Chifre da África se  agravou recentemente com a  retomada das  hostilidades e  a internacionalização do conflito. (...) Em Uganda, é preciso encorajar os avanços das negociações entre as partes,  de cara a  pôr fim a  um conflito cruel em se tem recrutado inclusive numerosos meninos obrigados a  serem soldados".  

"A Região dos Grandes Lagos se viu ensangüentada, depois de anos, por guerras ferozes.  Com satisfação e  esperança convém acolher a recente evolução positiva, em particular a  conclusão da fase de transação política em Burundi e  mais recentemente na República Democrática do Congo. (...) Para Ruanda, desejo que o longo processo de  reconciliação nacional depois do genocídio alcance  seu fruto na justiça, e também na  verdade  e o perdão. (...) Finalmente,  quisera mencionar a Costa do Marfim, exortando as partes implicadas a criar um clima de  confiança recíproca que possa levar ao desarmamento e a  pacificação, e , por outra parte,  África Austral: nesses países, milhões de pessoas se vêm reduzidas  a  uma situação muito vulnerável, que exige a atenção e  o apoio da comunidade internacional".  

"Indicações positivas para a África vem  igualmente da  vontade, expressada pela comunidade internacional, de manter esse continente no centro de  sua atenção, e também de reforçar as  instituições  continentais e  regionais,  que dá prova da  intenção dos países  interessados de fazer-se cada vez mais responsáveis de  seu próprio destino".  

"A viagem apostólica, que no próximo mês de maio farei ao Brasil, me oferece a  ocasião de dirigir meu olhar a  esse  grande país que me espera com alegria,  e  a toda América-Latina e Caribe.  A melhora de  alguns índices econômicos, o compromisso da luta contra o tráfico de drogas e contra a corrupção, os distintos processos de integração, os esforços para melhorar o acesso à educação, para combater o desemprego e  para reduzir desigualdades na distribuição de rendas, são índices que se  destacam com satisfação.  Se estes progressos se  consolidam, poderão contribuir de maneira determinante para vencer a pobreza que aflige a  vastos setores da população e aumentar a estabilidade institucional".  

"Ao tratar sobre as  eleições ocorridas no ano passado em vários países, convém sublinhar que a democracia está chamada a  levar em conta as aspirações do conjunto dos cidadãos, a promover o desenvolvimento no respeito de  todos os membros da socidade, segundo os princípios da  solidariedade, da subsidiariedade e da justiça. Sem embargo,  convém pôr-se em guarda frente ao desafio de um exercício da democracia que se transforme em ditadura do relativismo, propondo modelos antropológicos incompatíveis com a natureza e a dignidade do homem".  

"Minha atenção se  dirige mui especialmente a alguns países, em particular a Colômbia, onde o longo conflito  interno tem provocado uma crise humanitária, sobretudo pelo que se refere às  pessoas deslocadas. Devem-se fazer todos os esforços necessários para pacificar o país, para devolver as pessoas seqüestradas às suas famílias,  para voltar a  dar segurança e  uma vida normal a milhões de pessoas. (...) Nosso olhar se dirige a Cuba. Com o desejo de que cada um de seus habitantes possa realizar suas aspirações legítimas em favor do bem comum, permitindo-me que retome a chamada de meu venerado Predecessor:  "Que Cuba se  abra ao mundo e  o mundo a Cuba".  A abertura recíproca com os demais países resultará em benefício de todos.  Longe dali, o povo haitiano vive todavia uma grande pobreza e na violência. Formulo meus votos para que o interesse da comunidade internacional, manifestado entre outras iniciativas pelas conferências de doadores que ocorreram em 2006, leve à consolidação das instituições e  permita ao povo converter-se no protagonista de  seu próprio desenvolvimento em um clima de reconciliação e concórdia".

 "A Ásia apresenta, como um todo, países caracterizados por uma população muito numerosa e  um grande desenvolvimento econômico. Penso na China e na Índia, países em plena expansão,  desejando que sua presença crescente no cenário internacional, proporcione benefícios para suas próprias populações e para as outras nações. Igualmente formulo votos pelo Vietnam, recordando sua recente adesão à Organização Mundial do Comércio. Meu pensamento se dirige às comunidades cristãs.  Na maior parte dos países da Ásia se trata muitas vezes de comunidades pequenas, porém, vivas, que desejam legitimamente poder viver e atuar em um clima de liberdade religiosa.  Este é um direito primordial e  ao mesmo tempo uma condição que lhes permitirá contribuir ao progresso material e espiritual da sociedade, atuando como elementos de coesão e concórdia".  

"No Timor Oriental, a Igreja Católica se propõe a continuar oferecendo sua contribuição, em particular nos setores da educação, de saúde e da  reconciliação nacional.  A crise política sofrida por este jovem Estado, assim como por outros países da região, evidencia uma certa fragilidade dos processos de democratização. Perigosos focos de tensão se fraguam na Península da Coréia.  Deve perseguir-se no marco da negociação o objetivo da reconciliação do povo coreano e  da desnuclearização da  península, que tantos efeitos benéficos teria em toda a região.  Convém evitar os gestos que possam comprometer as  negociações, sem condicionar por isto a  seus resultados às ajudas humanitárias destinadas às camadas mais vulneráveis da população norte-coreana".  

"No Afeganistão, é necessário deplorar, ao longo dos últimos meses, o aumento notável da violência e os ataques terroristas, que dificultam o caminho até uma saída da  crise agravando pesadamente sobre as  populações locais.  No Sri Lanka, o fracasso das negociações de Genebra entre o Governo e o Movimento Tamil tem suposto uma intensificação do conflito, que provoca intensos sofrimentos entre a população civil.  Só a  via do diálogo poderá garantir um futuro melhor e  mais seguro para todos".  

"O Oriente Médio é fonte também de grandes inquietudes. (...) renovo minha urgente chamada a  todas as partes implicadas no complexo tabuleiro político da região, com a esperança que se consolidem as  indicações positivas  entre Israelitas e  Palestinos, verificadas  durante as  últimas semanas. A Santa Sé não se cansará nunca de repetir  que as soluções armadas não conduzem a nada,  como se viu no Líbano no verão passado.  O futuro deste país passa necessariamente pela unidade de  todos os que integram e pelas relações fraternas entre os diferentes grupos religiosos e  sociais (...); em particular, os libaneses tem direito a  ver respeitadas a integridade e  a  soberania de seu país;   os israelenses tem direito a viver em paz  em  seu Estado;  os palestinos tem direito a uma pátria livre e soberana. Se cada um dos povos da região vê  suas aspirações levadas em consideração e  se  sente menos ameaçado, se reforçará a confiança mútua".  

"Esta mesma confiança aumentará se um país como o Irã, especialmente no que concerne a seu programa nuclear,  aceita dar uma resposta satisfatória às legítimas preocupações da  comunidade  internacional.  Os passos dados neste sentido terão sem dúvida alguma um efeito positivo para a estabilidade de  toda a região, e em particular do Iraque, pondo fim à espantosa violência que ensangüenta este  país e  oferecendo a possibilidade de relançar sua reconstrução e  a  reconciliação entre todos seus habitantes".

 Um pouco mais próximo, na Europa, novos países de  longa tradição cristã como Bulgária e Romênia,  entraram na União Européia.  Ao prepararmos para celebrar o quinqüagésimo aniversário dos Tratados de Roma,  se impõe uma reflexão sobre o Tratado constitucional. Desejo que os valores fundamentais que estão à  base da  dignidade humana sejam protegidos plenamente, em  particular a liberdade religiosa em todas  suas dimensões, assim como os direitos institucionais das  Igrejas. (...) No quinquagésimoaniversário da insurreição de Budapeste, celebrado no mês de outubro passado, nos recordam os acontecimentos dramáticos do século XX, incitando a todos os  Europeus a  construir um futuro livre de toda opressão e de todo condicionamento ideológico.  (...) Do mesmo modo, é importante superar  as  tensões do passado,  promovendo a reconciliação em todos os níveis, já que só esta é a que permite construir o futuro e  favorecer a esperança.  Peço também a  todos os  que no continente europeu são tentados pelo terrorismo, que cessem toda a atividade desse gênero, já que tais comportamentos, que fazem prevalecer a violência cega e provocam o medo na população,  constituem uma via sem saída.  Penso também nos distintos "conflitos congelados", desejando que encontrem rapidamente uma solução definitiva.  Assim como Nas tensões recorrentes vinculadas hoje sobretudo aos recursos energéticos". 

Desejo que a região das  Balcãs alcance a estabilidade que todos esperam, de modo particular graças à integração nas estruturas continentais por parte das nações que a compõem, assim  como ao  apoio da comunidade  internacional.  O estabelecimento de  relações diplomáticas com a  República de Montenegro, que acaba de entrar pacificamente no concerto das  nações, e o Acordo de Base firmado com a Bósnia-Herzegovina, são dois sinais da  atenção constante da  Santa sé até à região das Balcãs.  Enquanto se  aproxima o momento em que se definirá o estatuto de Kosovo, a Santa Sé pede a todos os  implicados um esforço de sabedoria clarividente, de flexibilidade e de moderação, para que se encontre uma solução que respeite os direitos e  as legítimas  expectativas de todos". 

"As situações que mencionei - concluiu o Papa - constituem um desafio que nos implica a todos; trata-se de  um desafio consistente em  promover e consolidar tudo o que de positivo há no mundo e  a  superar, com boa vontade, sabedoria e tenacidade,  tudo o que fere,  degrada e  mata o homem. Só será possível promover a paz respeitando-se a  pessoa humana, e só construindo a  paz é  como se  sentarão as bases de um autêntico humanismo integral. (...) A Igreja, em seu compromisso ao serviço do homem e da construção da paz, está ao lado de  todas as pessoas de  boa vontade, oferecendo uma colaboração desinteressada.  Que juntos,  cada um em  seu posto e  com seus próprios talentos,  saibamos trabalhar na construção de  um humanismo integral, o único que pode garantir um mundo pacífico,  justo e solidário". 


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